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Ortodontia ou ortopedia funcional dos maxilares?


Joel C. R. Martins
- Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Clínica Infantil da Fac. de Odontologia de Araraquara/UNESP

Lidia Parsekian Martins
- Aluna do Curso de Pós-Graduação
- Nível de Doutorado em Ortodontia da Fac. Odontologia de Araraquara/UNESP

Mauricio T. Sakima
- Professor Assistente do Departamento de Clínica Infantil da Fac. Odontologia de Araraquara/UNESP


O artigo discorre sobre o debate Ortodontia vs. Técnicas Ortopédicas Funcional dos Maxilares (TOF) no tratamento das más oclusões. Os objetivos da presente publicação incluem a tentativa de esclarecer as origens históricas do debate e, o confronto entre as principais argumentações envolvidas nos dois lados da questão. Os fatores que podem explicar a manutenção do debate, ao longo de quase um século e, as vantagens em se uti-lizar o enfoque moderno que combina o que há de melhor em ambas as filosofias, é destacado, como uma atitude que se consolida como a tendência contemporânea.
Ortodontia ou Ortopedia Funcional dos Maxilares?

INTRODUÇÃO

 

            A Ortodontia é uma especialidade formalmente reconhecida como aquela que estuda, diagnostica e trata as más oclusões dentárias. Uma má-oclusão pode ser caracterizada por desvios do alinhamento dentário, na relação entre os arcos dentários ou, ainda, envolver os ossos basais maxilares e, assim, pode envolver diferentes tipos de aparelhos para tratamento. Existem pesquisadores ou clínicos que dizem ainda, que uma má-oclusão pode ser também muscular. Quando o procedimento de tratamento visa corrigir as desarmonias ósseas, além do alinhamento dentário, diz-se que o tratamento não é só ortodôntico, mas também ortopédico.

            A técnica de tratamento ortodôntico com aparelhos fixos, que é uma parte integrante e obrigatória da grade curricular de qualquer curso formalmente estabelecido, de tão importante que é, não raro, se confunde com o nome da própria especialidade. Assim, um Ortodontista pode ser estereotipado como aquele especialista que utiliza aparelhos fixos para tratar as más oclusões. Entretanto, isto é uma simplificação inadequada. Numa discussão, é freqüente ouvir-se o argumento de que, enquanto a Ortodontia concentra o seu esforço maior em alta tecnologia de fios e braquetes, para movimentar eficientemente os dentes, proporcionando alinhamentos de oclusão muito próximo de um obra de arte, a Técnica Ortopédica Funcional dos Maxilares (TOF) se propõe a buscar uma forma de influenciar no sistema estomatognático, com aparelhos relativamente simples de construir, onde o movimento dentário não é a prioridade, mas sim o restabelecimento do desvio funcional.

            Nas TOF, as influências negativas do ambiente funcional, responsabilizadas como causas da má-oclusão, devem ser desativadas pelo aparelho e canalizadas, em direção à normalização do sistema, com o argumento de que essas forças naturais são mutio semelhantes às forças biológicas e, que por isso promoverão mudanças morfológicas estáveis.

         Poder-se-ia dizer de uma forma didática que a Ortopedia acredita mais nas forças naturais, liberadas pelo sistema sob à ação do aparelho, do que nas forças ativamente produzidas pelos aparelhos. Confrontos de argumentos como: "forças ativas vs. forças passivas" ou o "mecânico vs. Biológico"  surgem neste debate, que dura já quase um século de bate boca.

 

 

 

O DEBATE HISTÓRICO: ORTODONTIA vs. ORTOPEDIA

   

            Tradicionalmente, existem lugares onde o debate é muito acirrado, colocando em discussão, se bem entendido, mais a preferência dos profissionais por uma ou outra das técnicas, do que a própria fundamentação científica.

            Este debate ficou muito evidente após a segunda grande guerra, quando os dentistas Europeus, diante de uma situação de carência de recursos financeiros, concentraram seus esforços nas Técnicas Ortopédicas Funcionais (TOF) para, de uma forma socializada, promover o atendimento à enorme demanda por serviços de correção das más oclusões. Nesta época, a Ortodontia como especialidade, era inacessível a maioria dos profissionais de países em desenvolvimento, seja pela alta tecnologia ou, pelo alto nível de treinamento profissional, exigido para formar o Ortodontista. Como não era possível treinar profissionais em Ortodontia, em número suficiente para atender todas as crianças com os sofisticados aparelhos ortodônticos fixos e, como o estado estava exigindo esse atendimento, treinou-se profissionais em aparelhos removíveis, como uma alternativa de nítida vantagem econômica.

            Muitos notáveis Ortopedistas Funcionais se formaram ao redor do mundo logo após a segunda grande guerra e, alguns deles, dedicaram-se a estudar os efeitos dos aparelhos funcionais sobre o crescimento craniofacial. Muitas observações clínicas se juntaram às boas pesquisas em animais de laboratório, reforçando os argumentos das TOF para o debate que se estabeleceu ao longo dos anos. Passada a guerra e os problemas dela decorrente, o debate ganhou a ordem do dia, porque a Ortopedia Funcional, depois de alguns anos, adquiriu um corpo doutrinário consolidando-se como disciplina nos cursos Europeus. Ela  oferecia uma alternativa, principalmente, para aqueles que não conseguiam o acesso ao treinamento formal da Ortodontia, ministrada na maioria das Universidades americanas, que tinham currículos mais voltados à biomecânica dos aparelhos fixos, por uma influências de seus grandes mestres como Angle, Tweed, Brodie etc...

            Não se pode deixar de considerar que, paralelamente ao reconhecido fator econômico já referido uma discussão sobre a natureza das forças ortodônticas foi decisivo, marcando o debate "Ortodontia vs. Ortopedia Funcional", que mais parecia uma batalha "Estados Unidos vs. Europa". A literatura mostra que, no início do século, os aparelhos fixos liberavam forças excessivas, promovendo reabsorções radiculares inaceitáveis, o que dava aos europeus subsídios para uma postura mais biológica. Tanto este argumento era forte que induziu um aprimoramento dos aparelhos fixos ao longo do tempo sendo, modernamente, produtores de forças mais leves.

            Outro fator acirrador do debate foi a questão das extrações de pré-molares no tratamento ortodôntico. Cientificamente consubstanciadas nas análises cefalométricas, elas se tornaram freqüentes entre Ortodontistas, principalmente naqueles casos em que o paciente exibia bi-protrusão maxilar e/ou excesso de volume dentário para o continente de base óssea maxilar. Os Ortopedistas seguraram o argumento de que o outro lado era muito extracionista, embora sempre soubesse, que entre os Ortodontistas "extrair ou não extrair", era um outro debate que hoje sabemos ser tão antigo como o que ora se está comentando.    

            De qualquer forma, Ortodontistas e Ortopedistas da classe dos fanáticos brigam muito, ainda hoje, para convencer os pacientes e, sobretudo os indicadores de pacientes (clínicos gerais), por interesses óbvios de sobrevivência e de domínio do campo profissional. Os clínicos mais espertos, quando assediados, pedem para ver os bons resultados em mesas clínicas, a comprovação estatística nas pesquisas e,  às vezes, até checam a formação daquele que tem o objetivo de convencê-los. Aqueles clínicos mais cordatos e, às vezes, menos esclarecidos, ouvem e são realmente convencidos, tornando-se em certas situações, verdadeiros cabos eleitorais de um ou, outro lado.  O paciente, leigo, vai desde a posição do confusão total, até a de ilusão absoluta, fascinando-se pela eloquência dos profetas de uma, ou outra seita.  "Qualquer destes profetas, depois de dez anos repetindo a mesma história, vira um respeitável orador com força nos argumentos, sedimentados ao longo dos anos, realmente rebuscados e convincentes".

 

 

 

COMEÇANDO A ESCLARECER

   

            De uma maneira simplística, pode-se explicar que a Ortodontia se concentra na utilização de aparelhos ativos, que aplicam forças externas para movimentar os dentes ou, alterar a forma dos ossos maxilares. Por seu lado, a Ortopedia Funcional procura alterar a tonicidade ou o local das inserções musculares associadas à arcada dentária, freqüentemente alterando a posição do osso mandibular, da língua e, da musculatura peribucal, baseado na hipótese de que os dentes  desalinham-se ou, os ossos deformam-se, porque os músculos da mastigação, da fonação, da postura e até da respiração, não estão funcionando corretamente. A busca por estímulos neuromusculares adequados é o desafia do Ortopedista.

            O Ortodontista nessa linha de debate, de um modo geral, esmera-se em movimentar os dentes e remodelar o osso alveolar, acreditando que se corrigidas as posições dos dentes e o relacionamento entre os arcos, as funções estariam beneficiadas como conseqüência. Se o paciente está crescendo com a função normalizada, admite-se que a estabilidade do sistema será consolidada. Mesmo quando é necessário alterações ortopédicas, nos casos das displasias esqueléticas, o enfoque tem sido, preferencialmente, mais agressivo ou, mais ativo, com forças de alta magnitude (300 gramas a 1 quilo).

          O Ortopedista Funcional, volta ao argumento de que a Ortodontia corrige as conseqüências, mas não se importa com as causas do problema e, o debate vai por aí a fora, pegando fogo. Na filosofia das TOF de tratamento, as forças deveriam ser sempre passivas e de tão pequena intensidade que se dizem fisiológicas, funcionais ou ainda naturais, isto é, geradas pelo próprio sistema. 

            Quem está com a razão o Ortodontista ou o Ortopedista? Os dois é óbvio, se eles forem ponderados. Ou mesmo, nenhum, se forem extremistas, tendenciosos ou interessados em fazer seu ponto de vista prevalecer, sem o suficiente conhecimento clínico, nem mesmo o conhecimento da  literatura especializada sobre ambas as técnicas.

            A Ortodontia parece ser mais susceptível de ser exercida com má qualidade, em função da diversidade tecnológica encorporada no tratamento e, por isso tem sido apontada como de alto potencial iatrogênico. Os ortopedistas, de uma forma astuta, não deixam de utilizar este argumento nas suas colocações. Este argumento contrabalança com as grandes limitações de movimentação dentária dos dispositivos utilizados pela Ortopedia Funcional, também denunciadas freqüentemente pelos Ortodontistas nos debates. O que se percebe interessante, é que, argumentos tão pesados e opostos sejam colocados contra uma ou outra técnica, cujos resultados clínicos são tão bons freqüentemente usados, como uma prova de que a técnica  funciona bem. Ambos complementam, dizendo: quando você escolheu a correta e, a utiliza com competência, é claro. 

            Esse debate, encontra um paralelo na medicina, que mostra uma grande controvérsia entre os médicos; o debate homeopatia e alopatia pode ser aqui destacado. Alguns médicos, acreditam que existe uma forma de utilizar as forças naturais para corrigir alguns dos próprios erros da natureza, os quais se manifestam nas doenças e aberrações que acometem os seres humanos. Da mesma forma indicam o tratamento básico, como a forma de tratar o todo (tratamento de base) e não só a parte afetada do organismo. Outros médicos acreditam que estas doenças devem ser tratadas com medicamentos procedimentos ou atitudes práticas, mais agressivas ou intervencionistas, as quais se mostraram eficazes através dos tempos com experimentos científicos, clínicos ou laboratoriais, sempre documentados na literatura.

 

 

 

O EXTRABUCAL vs. ATIVADOR

 

            O exercício para entender fácil e adequadamente o debate Ortodontia vs. Ortopedia, da forma como ele se apresenta hoje, talvez passe pela análise da geometria da má-oclusão de Classe II, que é a displasia esquelética mais comum. Aceitando-se que essa má-oclusão seja uma protrusão da base maxilar, é lógico pensar-se em influenciar o arco superior durante o crescimento para a harmonização da sua relação com a mandíbula. Esta premissa leva os Ortodontistas a utilizarem o aparelho Extrabucal para inibir ou controlar o crescimento e/ou os dentes do arco maxilar superior. Por outro lado, considerando-se que a Classe II se define mais freqüentemente por uma inadequada posição ou tamanho mandibular, torna-se muito lógico a indicação de aparelhos ortopédicos para estimular o crescimento ou reposicionar o osso mandibular, ao invés de influenciar o maxilar superior.

            O bom entendimento do debate pode passar também, por uma consideração biológica ou mesmo histórica, que apresenta a maxila com maior susceptibilidade de ser influenciada por forças mecânicas advindas de um aparelho ortodôntico ou ortopédico. A mandíbula tem sido considerada mais resistente às influenciais mecânicas porque seu principal centro de crescimento é a cartilagem do côndilo. Estes dogmas estabelecidos pelos estudos tradicionais de crescimento facial reforçam o argumento da utilização dos aparelhos Extrabucais.

            Por outro lado, o argumento do controle mecânico do crescimento mandibular começa a ser muito aceito, em diversos centros de pesquisas, onde experimentos com animais de laboratório provam esta possibilidade. Nos dias atuais, fala-se inclusive que ocorreui a substituição do paradigma Genômico pelo paradigma Morfofuncional em ortodontia (Carlson2 ). Este novo paradigma indica que influências ambientais têm grande participação na definição da forma dos osso faciais e também pelos desvios da oclusão. Por exemplo: a cartilagem do côndilo, vista antes como centro de crescimento autônomo, por ser uma área de ossificação endocondral, passou a ser muito aceita, atualmente, como um sítio de crescimento porque, como uma cartilagem secundária, coberta por tecido conjuntivo fibroso, cresce   adaptando-se às demandas funcionais. Assim, contemplamos um momento, caracterizado por grande aceitação da teoria da Matriz Funcional para explicar o crescimento facial e, isto reforça as bases para a indicação dos aparelhos funcionais.

            Outro aspecto da geometria da Classe II, que explica a permanência do debate ao longo dos a anos, é a aceitação de que desarmonias na dimensão vertical podem ter grande responsabilidade na definição da Classe II. Admite-se melhor esta idéia hoje do que no passado. Nesta linha de pensamento, muitos dos aparelhos ortopédicos baseiam-se no controle da erupção dentária no tratamento da Classe II. Poderíamos argumentar que muitos Ortodontistas compartilham desta crença também. Da mesma forma, mais recentemente, o controle da dimensão transversal passou a ser aceito como fundamental no tratamento da maioria das más oclusões de Classe II. Isto vai de encontro ao fato de que muitos dos aparelhos funcionais fazem da expansão maxilar seu ponto básico de tratamento. Nesta mesma linha de pensamento muitos ortodontistas fazem as disjunções palatinas logo no início do tratamento da Classe II ou expandem os aparelhos Extrabuacais durante a correção ântero-posterior.

            Dois exemplos poderão esclarecer a natureza acirrada do debate: Berg1 ao comentar as vantagens e desvantagem dos tratamentos com aparelhos extrabucais e aparelhos funcionais, num congresso internacional na Holanda, em 1987, relatou que utilizava aparelhos funcionais em 25% dos seus casos, logo no começo da sua vida profissional e, que os reduziu para 5% ao longo dos anos, substituindo-os por aparelhos extrabucais. O autor destacou ainda 9 vantagens do aparelho fixo, sobre o funcional. Entre estas vantagens,  incluem-se: 1) o extrabucal não interfere com a posição condilar, o que poderia determinar a possibilidade de mordida dupla por acomodação;  2) o extrabucal comprovadamente retarda o crescimento maxilar, enquanto não está provado ainda que o aparelho funcional estimula o crescimento mandibular; 3) o extrabucal não inclina os incisivos inferiores para vestibular como os aparelhos funcionais; 4) o ganho de espaço para alinhamento dos dentes na maxila é mais eficiente com o aparelho extrabucal.  

            Por outro lado, bem mais recentemente, um Ortodontista americano Dr. Iain Edwards, 4 escreveu no fórum de leitores do Am. J. Orthod. (agosto de 1996) que, após 30 anos de tratamentos com aparelhos fixos, teria mudado sua forma de trabalho na última década, utilizando mais freqüentemente os aparelhos funcionais no tratamento da Classe II. Para ele, os resultados são infinitamente melhores, mais fáceis de se atingir com menor quantidade de extrações, com melhor estética facial e, menor quantidade de reabsorções  radiculares.

            Como se percebe, não é difícil encontrar-se convincentes argumentos, com base em opiniões e experiências pessoais de respeitáveis clínicos, quando a intenção é defender uma determinada (e própria) posição. Difícil é a comprovação científica de que uma técnica seja, realmente, e de um modo sistemático, melhor do que a outra em casos semelhantes.     

 

 

PORQUE  NÃO ORTODONTIA E ORTOPEDIA JUNTOS?

 

            Os desalinhamentos dentários são melhores e mais rapidamente corrigidos com aparelhos fixos e, isto já está suficientemente aceito entre os diferentes clínicos ou pesquisadores. A comprovação disto é que na maioria dos cursos que formam os Ortodontistas Europeus, alguma técnica de aparelho fixo é parte integrante da grade curricular.

            As anormalidades das bases ósseas, sejam na forma dos arcos ou na relação entre os maxilares são corrigidas hoje, freqüentemente, com aparelhos ortopédicos funcionais e, uma prova disto é que na maioria dos cursos que formam os Ortodontistas Americanos, alguma técnica de aparelho ortopédico funcional integra a grade curricular.

            Ao escrever sobre o binômio Ortodontia/Ortopedia, um dos mais notáveis Ortopedistas Funcionais, o alemão Rolf Frankel5, destacou que o conceito de Ortopedia suportava fortemente a racionalidade do tratamento precoce, contrastando com o tratamento ortodôntico em época tardia, que envolve movimentação dento-alveolar para camuflar a má-oclusão.O autor destacou que, o enfoque ortopédico, tem que se envolver essencialmente com o reconhecimento imediato das condições não fisiológicas que influenciam negativamente o crescimento craniofacial.

            Acontece que o tratamento precoce das más oclusões  não era realizado com muita freqüência pelo Ortodontista no passado. Hoje, é muito comum encontrar o Ortodontista utilizando os próprios dispositivos do seu arsenal ortodôntico fixo (Disjuntor palatino, extrabucal placa lábio-ativa etc...) ou, então, envolver-se com aparatologia ortopédica funcional, para tratar mais cedo as más oclusões. Atualmente, esta é a primeira fase de um tratamento ortodôntico dito bi-fásico: na primeira fase, cuida-se da função e do relacionamento esquelético e, na segunda fase cuida-se do alinhamento dentário. Em contra-partida muitos ortopedistas, por seus turnos, se utilizam dos aparelhos fixos somente para desenvolver a sua segunda fase de tratamento, que vem a ser o alinhamento e nivelamento dentário (Finalização). Deve ser destacado porém que o tratamento bi-fásico, ele mesmo, pelo seu largo espectro de vantagens e desvantagens, tornou-se um outro grande debate na Ortodontia contemporânea.

            Destes parágrafos anteriores surge a pergunta: Porque não utilizar as duas técnicas de forma integrada? Bem, um profissional que utiliza uma só técnica durante toda a sua vida, poderá ganhar mais experiência e, acabar conhecendo melhor todas as limitações do seu único tipo tratamento. Esta pode ser uma grande vantagem, entretanto, manejando a sua técnica no máximo da sua esperteza, ainda assim, é natural que produza alguns tratamentos com resultados limitados. A grande variabilidade das más oclusões, que é uma marcante características do ser humano, não pode ser abstraída. Não há lógica em tentar tratar os diferentes pacientes com uma mesma técnica. Parece mais inteligente que o profissional se habilite em várias técnicas e, desta forma, selecione dentre as diferentes técnicas, aquela mais adequada ao paciente que passa a ser considerado individualmente e, aceito como único. Até 1966, a publicação que mais havia contribuído para o entendimento deste velho debate e destacava uso associado dos aparelhos ortodônticos e ortopédicos era o livro do Graber & Neumann: Removable Orthodontic Appliances. 7

            Uma revisão rápida na literatura mostra, que num certo momento, muitos Ortodontistas, concomitantemente ao aparelho fixo, se utilizavam de aparelhos ortopédicos, denominados ativadores, para reposicionar o osso mandibular. Este procedimento substituiu, nos casos de retrusão mandibular, o aparelho extrabucal que era utilizado no controle do crescimento maxilar. Por outro lado, a literatura mostrou também, que muitos Ortopedistas se utilizavam de aparelhos fixos para alinhar os dentes, antes ou durante ou após a terapia funcional. Como ilustração, mostramos um caso clínico, Figuras 1, 2, 3 e 4, utilizando a técnica combinada de aparelho fixo (Straight Wire de Rooth) e, Ortopédico Funcional (Bionator de Balters) com um bom resultado final.

            Para ilustrar com dados da literatura, passamos a transcrever dois trechos de dois dos mais recentes livros texto. Os ortopedistas Witzig & Spahl11 destacam sobre esse assunto: "O uso combinado da Técnica Ortopédica e da técnica dos Aparelhos Fixos, permite ao moderno clínico obter resultados de alta qualidade não somente para a oclusão, mas também para a face e a articulação têmporo-mandibular". Da mesma forma,  um dos mais famosos ortodontistas, GRABER8, em sua recente obra (Orthodontics: Current Principles and Techniques-1994) "destaca-nos a conclusão óbvia de que "a combinação de aparelhos fixos com aparelhos funcionais, podem produzir o melhor possível do mundo ortodôntico, tirando de cada um, o que eles oferecem de melhor."  

            Mais recentemente, aparelhos híbridos (figura 5 e 6), têm sido utilizados com as vantagens de ambas as técnicas utilizadas isoladamente (Cura et al 3 ; Stöckli & Teuscher10 e Henriques9).  Aparelhos funcionais, como o Bionator ou o ativador, incluem tubos para encaixe do aparelho extrabucal, de forma que o reposicionamento anterior mandibular pode ser estimulado, enquanto a força extrabucal se encarrega de controlar o crescimento maxilar. Estes aparelhos se mostram muito ecléticos, com diversos desenhos, mostrando muita criatividade de ambos os lados, o que caracteriza um certo ponto de acordo entre Ortodontistas e Ortopedistas Funcionais contemporâneos, depois de se debateram ao longo de quase um século para defender as suas técnicas isoladamente. Restam, reticentes,  os profissionais com formação mais ortodoxa ou comprometidos de tal forma, com o debate, que dificilmente darão o braço a torcer. 

 

 

COMENTÁRIO FINAL

 

            Em qualquer direção que o debate foi no passado ou esteja indo, no presente, nunca deixou de ficar evidente que o exercício criterioso do diagnóstico e plano de tratamento é tão ou mais importante que o próprio tratamento das más oclusões. Da mesma forma, a manipulação dos aparelhos no sistema biológico, sejam fixos ou removíveis, exigem um treinamento formal que deve ser, de um modo geral, dois anos, em dedicação integral, numa instituição de reconhecido rigor educacional, clínico e científico. Assim, aceita-se uma técnica ortodôntica e/ou ortopédica, desde que bem indicada e bem executada, com o máximo bom senso.

            De qualquer forma, não podemos desconsiderar que a harmonia do contôrno dos arcos dentários, nas diferentes más oclusões, está alterada e isto ocorre por   responsabilidade da interação entre as forças naturais de equilíbrio neuromuscular, o que desorganiza ou mantém a desorganização do sistema. Aparelhos ortodônticos ou ortopédicos (fixos ou removíveis) criam forças adicionais, que operam na direção da normalização do sistema estomatognático, dependendo do processo de adpatação neuromuscular.

         Como diz Fränkel6, não há dúvida mais: os aparelhos não se constituem hoje um grande problema. Um dos grandes problemas - que ainda não se conhece direito - é o que acontece depois que os aparelhos são removidos e as forças adicionais às naturais deixam de operar. As avaliações após o tratamento mostram que os resultados morfológicos serão estáveis, somente se eles estiverem em equilíbrio com as forças biomecânicas que estão agindo no sistema, isto é, se ocorrer a readaptação neuromuscular.

         Desta forma, talvez se possa concluir que a técnica é meramente o meio de se atingir um objetivo de tratamento, este sim, muito mais crítico, porque o resultado final de um tratamento pode não ser o mais adequado, nem mesmo o mais estável.

 

 

CONCLUSÃO     

           

            O debate histórico que levou muitos Ortodontistas e Ortopedistas Funcionais a estabelecerem posições divergentes com relação à técnica de correção das más oclusões, pode estar se diluindo no tempo. Isto pode estar acontecendo, em função do maior conhecimento dos detalhes do próprio debate e, do enfoque contemporâneo do tratamento das más oclusões. O profissional mais atualizado, pode estar utilizando  dispositivos advindos de diferentes técnicas, tendo no aparelho híbrido ou, no uso dos ativadores combinados aos aparelhos fixos, sinais de convergência entre os argumentos ortodôntico e ortopédico que marcaram o grande debate.

 

 

 

ABSTRACT

          This article is carring out the authors' view about the debate:  Orthodontics vs. Functional Orthopedics in  malocclusions' treatment. The main objective is to brings up an attempt to the  historical origin of the debate and the match between the main arguments involved in both sides of the question. The factors that can explain the duration of the debate is being discussed. The advantages in combining both techniques is pointed out as the contemporaneous trend in Orthodontics or Functional Orthopedics.

 

KEYWORDS: Orthodontics; Maxillary Functional Orthopedics

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

 

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2.CARLSON, D.S. Craniofacial  biology as normal science, In: JOHNS-TON,L.E. Jr. (Ed.): New vistas in orthodontics.Philadelphia, Lea & Febiger, 1985.

 

3.CURA, N. et al. Orthodontic and orthopedic effects of activator, activator-HG combination, and Bass appliances: a comparative study. Am.J.Orthod. Dentofacial.Orthop., v.110,  p.36-45, 1996.

 

4.EDWARD, S,I.G. Righting the wrong paradigm. Am.J.Orthod. Dentofacial.Orthop., v. 110, p.16A-18A, 1996.

 

5.FRÄNKEL, R.; FRÄNKEL, C. Orofacial orthopedics with the Function Regulator., Basel: Karger,  1989, p 219.

 

6.FRÄNKEL, R. The treatment of Class    II, Division 1 malocclusion with functional corretors. Am..J.Orthod., v. 55,  p. 266-75, 1969.    

 

7.GRABER, T.M.; NEUMANN, B. Removable orthodontic appliances. Philadelphia, Saunders,  1977, p610..

 

8.GRABER, T.M. Functional appliances.,  in: GRABER, T.M.; VARNASDALL, Jr., R.L. Orthodontics: current principles and techniques, St. Louis; Mosby, 1994, p.645.

 

9.HENRIQUES, J.F.C. Estudo cefalométrico comparativo, de três tipos de ancoragem extrabucal, sobre as estrutura dentoesqueléticas, em pacientes com Classe II, 1a. divisão.  Bauru 1993, 166p. Tese (Livre-Docência) - Faculda-de Odontogia de Bauru-Universidade de São Paulo.

 

10.STÖCKLI, P.W.; TEUSCHER, U.M. Combined Activator headgear orthopedics. In.: GRABER, T.M.;  SWAIN,B. Current orthodontics principles and techniques. St.Louis;  Mosby, 1985, p. 405-83.

 

11.WITZIG,J.W.; SPAHL,T.J. The clinical managment of basic maxillofacial orthopedic appliances. Litelton PSG.Pub 1986, v.1, p.590.

 


Publicado na Revista Odontologia Clínica da APCD de Araraquara v.7 Julho/Dez de 1996. Fax:016 - 2365266




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